Introdução
O desenho animado Phineas
and Ferb, (na versão brasileira Phineas e Ferb, Delart RJ) chegou ao Brasil em
fevereiro de 2008 através do canal de TV Disney Channel. Na versão americana, é
uma série de comédia musical animada. Os episódios seguem um enredo padrão, o
momento é sempre as férias de verão dos irmãos, que sem nada para fazer às
tardes, decidem sempre construir um grande projeto, como uma praia particular
em seu quintal, uma montanha russa gigante ou algo parecido e literalmente
impossível. A irmã dos meninos, Candace, sempre tenta contar para sua mãe sobre
o que eles fazem, mas o que sempre acontece é as coisas voltarem ao normal
quando ela presencia, o que irrita muito Candace. O enredo envolve ainda
“Perry, o ornitorrinco”, como um agente secreto que luta contra seu inimigo Dr.
Heinz Doofenshirtz, um cientista maldoso que sempre tenta, impedido pelo Agente
P. (Perry, o ornitorrinco), dominar o mundo através de criações de super
máquinas. Os dois enredos acontecem separados, porém simultaneamente e se
cruzam ao final para apagar os vestígios de tudo que os irmãos construíram sem
a mãe perceber, o que deixa Candace muito frustrada. Analisando os três
personagens principais, Phineas, Ferb e Candace, concluo que pelas
características sintomatológicas apresentadas em toda a série e no episódio
específico “Montanha russa”, que Candace é esquizofrênica, nesta análise, vamos
focar na personagem.
Análise sintomatológica na ótica
psicanalítica da personagem Candace
Como já mencionado, os episódios
seguem um roteiro padrão. O episódio começa com os irmãos planejando o que irão
construir naquela tarde. Logo que a mãe
vai ao supermercado, a irmã e personagem principal, Candace, vai avisar aos
irmãos que estaria responsável por eles na ausência da mãe. Segundo Pequeno
(2002), na esquizofrenia não ocorre
a simbolização da ausência da mãe tal como se dá na paranoia. A mãe funciona
muitas vezes como bengala imaginária. Quando ela não está presente, ele [o
esquizofrênico] se perde. Nessa visão de A. Pequeno, podemos fazer uma analogia
com a personagem, pois os momentos em que as crises aparecem mais fortemente é
na ausência da mãe, que serve para ela como uma bengala imaginária que lhe dá
suporte ajudando a personagem a distinguir, sem sucesso, o que é real e o que é
imaginário. O que se percebe nas próximas cenas, é uma preocupação de
Candace em fazer com que a mãe coloque os irmãos de castigo por terem feito
algo que a irritasse. Como todos os dias das férias eles constroem algo
demasiado engenhoso, ela faz o possível para a mãe perceber, porém sempre a
cena dos irmãos e a cena de Perry, o ornitorrinco, se cruzam para encobrir
tudo. A irmã, esquizofrênica, fantasia as coisas impossíveis que Phineas e Ferb
fazem, e também a vida secreta do animal de estimação e é vista pela mãe como
louca.
O
tipo de esquizofrenia apresentada pela personagem é hebefrênica, pois foi
apresentada na adolescência, e conta ainda com a paranoide, pois vemos as
fantasias, alucinações e a dificuldade de distinguir o que é realidade e o que
é imaginação, por exemplo, o animal de estimação visto pelos irmãos como disse
Phineas no início do episódio “- Ele é um ornitorrinco, não é muito esperto”, é
apenas um animal de estimação qualquer. Entretanto a irmã fantasia que o
ornitorrinco seja um agente secreto que salva a cidade todos os dias da
conspiração de um cientista maldoso que planeja destruir tudo para se sair bem.
A personagem também fantasia coisas absurdas feitas pelos irmãos. No episódio
“Montanha russa”, ela fantasia que eles constroem sozinhos uma super montanha
russa que passa por toda cidade e tem partes que passam desde lava à jatos ao
espaço extraterrestre. Ela apresenta
muitos dos sintomas da doença: Sensação de tensão e irritabilidade
(principalmente com os irmãos), dificuldade de concentração e pensamentos
desordenados (sempre mistura as falas, não para de falar durante as cenas em
que aparece), ilusões (como antes apresentado, conspiração contra os irmãos e
fantasia com o animal de estimação), comportamentos bizarros (no episódio,
observamos o espanto da personagem com a possibilidade de um satélite sair de
órbita e cair dentro de sua casa, e logo após ela ri, sair gritando ao meio da
rua de bicicleta ao encontro da mãe para contar o que os irmãos estão fazendo,
entre outros), ansiedade.
A esquizofrenia é uma doença genética,
mas que precisa de um gatilho, ou série de acontecimentos que gerem trauma na
vida do indivíduo para se desenvolver. Na ótica psicanalítica, segundo Jardim
(2011), o delírio é uma tentativa de
cura, uma reconstrução do mundo exterior pela restituição da libido ao objeto
ainda que por uma via completamente imaginária, algo que não passa despercebido
nos comportamentos do esquizofrênico. Também se pode observar que as
instâncias do aparelho psíquico do esquizofrênico agem diferentemente. Os
impulsos e pulsões contidos no Id não são totalmente julgados pelo superego, e
o que o ego exige do Id é muito mais forte devido às fantasias que o
esquizofrênico julga serem verdadeiras. A baixa censura faz com que ele tenha
contato direto com o inconsciente, a esquizofrenia está dentro da personalidade
psicótica proposta pela teria psicanalítica freudiana.
A
esquizofrenia, segundo a psicanálise, também pode ser desencadeada naqueles que
tem os genes ligados à doença pela relação com uma mãe superprotetora que
também maltrata. A falta de uma das figuras materna/paterna também pode ser um
agente que ajudará nesse processo de desencadeamento da patologia, não temos uma
figura paterna no desenho, o que podemos analisar como uma construção da
criança de uma mãe que faz os dois papeis ao mesmo tempo, e uma falha nesse
contexto mais o gene da doença, desencadearia a patologia em si. A personagem
do desenho em questão não apresenta desleixo com a aparência e higiene, porém
apresenta muito forte a sensação de desconfiança de estarem a provocando (os
irmãos arrumando tudo antes que a mãe veja), sensação de que o ambiente esteja
estranho e também muita agitação, confusão e agressividade. Também vemos
durante o episódio que ela tem uma crença inabalável e alucinações e delírios
de que os dois irmãos e o animal de estimação fazem coisas que na realidade são
impossíveis. Ela não concorda com qualquer correção da mãe sobre suas alucinações,
por exemplo, quando ela vai ao supermercado ao encontro da mãe para contar
sobre o que seus irmãos estavam fazendo, a mãe a chama de louca, e ela logo
rebate dizendo que não está louca, que o que vê é verdade.
Em
algumas pessoas em particular, a patologia causa sintomas cognitivos como
problemas com atenção e alguns tipos de memória, porém em alguns casos podem
ser difíceis de notar (a depender se o paciente estiver em tratamento), e pode
ser que o individuo leve a vida sem sofrer muitas consequências ruins. Na
personagem em análise, observamos que ela apresenta alguma dificuldade na
atenção simultânea, por exemplo, quando fala ao telefone e não percebe que os
irmãos passam por seu lado com coisas absurdas como um leão na jaula e uma
grande quantidade de ferramentas para a construção da montanha russa gigante. É
interessante notar também que em diversos momentos é perguntado à Phineas, o
irmão mais agitado e mais falante, se não é meio impossível que se realize o
que ele faz naquele determinado momento. Ele sempre responde: “-Tem gente que
acha” ou até concorda com o outro, como quando o vendedor da loja de materiais
de construção lhe pergunta: “- Você não é meio novo para ser engenheiro de
montanha russa?”, e ele responde “- Sou, pior que sou”. O que analisamos é que
a irmã, Candace que é que alucina a maior parte (ou tudo) o que acontece no
episódio em questão, tem seus momentos de indagação sobre suas alucinações, que
julga serem verdadeiras. É quando surge esse tipo de pergunta, mostrando claramente
que por mais que ela não aceite que tudo que alucina seja “mentira” ou algo
fora da realidade, é questionável alguns aspectos, como o seu irmão de menos
idade que ela mesma, ser um engenheiro de montanha russa.
Não
saber distinguir entre a realidade e a fantasia é o sintoma chave da patologia
que estamos analisando. Eles realmente estão em período de férias, estão
brincando no quintal, a mãe realmente sai e os deixam sozinhos etc. Porém
Candace alucina tudo que já foi colocado e acredita fielmente que seja
realidade, um aspecto que deve ser colocado é que o esquizofrênico alucina com
coisas do seu cotidiano, exatamente como acontece com Candace, já que o desenho
gira em torno de sua família, alguns amigos e o animal de estimação dos irmãos.
Conclusão
Para
Candace, o tratamento mais adequado seria de controle dos sintomas, pois não há
cura para a doença. Esse tratamento teria que ser com medicamentos controlados,
hospitalização durante as crises para sua segurança e dos outros a sua volta, e
terapia psicossocial para lhe ajudar a se adequar na sociedade e no meio em que
vive. Além disso, é necessário alimentação e sono adequado do paciente, e
higienização.
Além de o trabalho ser muito
importante na fixação de conteúdo e aprendizagem na disciplina, acredito que
tenha aberto os nossos horizontes em relação a teoria psicanalítica e também à
análise de sintomas e características de uma personalidade na ótica da teoria.
Concluo que o trabalho foi de caráter fundamental no meu processo de formação.
Referências
JARDIM, Luciane Loss. A fragmentação
do eu na esquizofrenia e o fenômeno do transitivismo: um caso clínico. Rev. Mal-estar e subjetividade.
Fortaleza, vol. 11, n. 1, mar. 2011.
PEQUENO, Angela. Os demônios do gozo:
uma contribuição para a psicanálise da esquizofrenia. Ágora. Estudos em teoria psicanalítica. Rio de Janeiro, vol. 5, n.
1, Jan./Jun. 2002.