quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Vivência subjetiva do tempo

Como cada indivíduo vivencia a experiência do tempo, sua passagem, e suas relações com aspectos particulares da vida de cada um.


 "Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo." Friedrich Nietzsche

 O tempo cronológico é único, segue uma linha direta que não pára, e independente de qualquer fenômeno do mundo, mesmo não sendo percebido por ninguém, ele continua. Por exemplo, o relógio de pulso que temos, mesmo que a gente não fique olhando para ele o tempo todo, ele continua a contar o tempo até que a bateria se esgote, o que não faz o tempo parar.
 Essa característica de o tempo não parar, é tema desde que se começou a contagem do tempo, de ditos populares, músicas, poesias e muitos outros aspectos.
 O que nos interessa nesse momento não é o tempo cronológico, esse tempo que podemos contar, mas sim o tempo subjetivo, a relação do tempo com cada momento da vida dos indivíduos.
 Um dia para quem está em um parque aquático, se divertindo à beça, pode passar muito rápido para o indivíduo, porém para quem trabalha no local limpando as piscinas, por exemplo, e acha um saco ter que trabalhar fazendo aquilo, o mesmo dia pode se tornar quase eterno. O que acontece é que prestar atenção no passar do tempo pode interferir na sua percepção, fazendo com que ache que as horas "voaram" ou passaram demasiadamente devagar.
 Fazendo uma analogia com  frase do filósofo alemão Nietzsche, acima citada, podemos analisar que para quem foi privado de tudo por muito tempo (por exemplo, um prisioneiro que pagou por seus crimes, uma criança que foi privada de diversão fora de casa por seus pais até depois da adolescência) a vivência do tempo nesse novo contexto pode se dar de forma demasiadamente rápida, já que possivelmente irá aproveitar tudo o que antes foi privado de realizar.
  Analisando o contexto religioso, na bíblia encontramos alguns versículos falando sobre o tempo:

  1. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. (Eclesiastes 3:1)
  2. Mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. (2 Pedro 3:8)
 O que se interpreta desses versículos é justamente que para nós, a vivência do tempo é totalmente subjetiva, a passagem do tempo pode ser longa ou curta na percepção de cada um, a depender do contexto em que o mesmo se encontre. 
 O tempo é único e constante, porém cada um vivencia de forma diferente para cada experiência. 
 Na infância, começamos a adquirir a noção de tempo depois de ter noção de antes e depois, ordenação de movimentos para realizar determinadas atividades cotidianas (vestir-se, despir-se, calçar os sapatos). Antes disso, um minuto pode ser entendido como uma hora, e uma hora como um segundo, ou seja, ainda não teríamos noções de tempo e nem uma subjetividade totalmente formada, para saber quem, onde e quando somos/estamos. 



Referências:
OLIVEIRA, Gislene de Campos. Psicomotricidade: Educação e reeducação num enfoque psicopedagógico. Petrópolis: Vozes, 2002. (Cap.2. Desenvolvimento da psicomotricidade. p. 41-103).
Bíblia sagrada. Eclesiastes cap 3, vers. 1/2 Pedro cap. 3, vers. 8. Nova versão internacional. 





Análise sintomatológica psicanalítica do episódio “Montanha russa” do desenho animado Phineas and Ferb

Introdução
O desenho animado Phineas and Ferb, (na versão brasileira Phineas e Ferb, Delart RJ) chegou ao Brasil em fevereiro de 2008 através do canal de TV Disney Channel. Na versão americana, é uma série de comédia musical animada. Os episódios seguem um enredo padrão, o momento é sempre as férias de verão dos irmãos, que sem nada para fazer às tardes, decidem sempre construir um grande projeto, como uma praia particular em seu quintal, uma montanha russa gigante ou algo parecido e literalmente impossível. A irmã dos meninos, Candace, sempre tenta contar para sua mãe sobre o que eles fazem, mas o que sempre acontece é as coisas voltarem ao normal quando ela presencia, o que irrita muito Candace. O enredo envolve ainda “Perry, o ornitorrinco”, como um agente secreto que luta contra seu inimigo Dr. Heinz Doofenshirtz, um cientista maldoso que sempre tenta, impedido pelo Agente P. (Perry, o ornitorrinco), dominar o mundo através de criações de super máquinas. Os dois enredos acontecem separados, porém simultaneamente e se cruzam ao final para apagar os vestígios de tudo que os irmãos construíram sem a mãe perceber, o que deixa Candace muito frustrada. Analisando os três personagens principais, Phineas, Ferb e Candace, concluo que pelas características sintomatológicas apresentadas em toda a série e no episódio específico “Montanha russa”, que Candace é esquizofrênica, nesta análise, vamos focar na personagem.

Análise sintomatológica na ótica psicanalítica da personagem Candace
Como já mencionado, os episódios seguem um roteiro padrão. O episódio começa com os irmãos planejando o que irão construir naquela tarde.  Logo que a mãe vai ao supermercado, a irmã e personagem principal, Candace, vai avisar aos irmãos que estaria responsável por eles na ausência da mãe. Segundo Pequeno (2002), na esquizofrenia não ocorre a simbolização da ausência da mãe tal como se dá na paranoia. A mãe funciona muitas vezes como bengala imaginária. Quando ela não está presente, ele [o esquizofrênico] se perde. Nessa visão de A. Pequeno, podemos fazer uma analogia com a personagem, pois os momentos em que as crises aparecem mais fortemente é na ausência da mãe, que serve para ela como uma bengala imaginária que lhe dá suporte ajudando a personagem a distinguir, sem sucesso, o que é real e o que é imaginário. O que se percebe nas próximas cenas, é uma preocupação de Candace em fazer com que a mãe coloque os irmãos de castigo por terem feito algo que a irritasse. Como todos os dias das férias eles constroem algo demasiado engenhoso, ela faz o possível para a mãe perceber, porém sempre a cena dos irmãos e a cena de Perry, o ornitorrinco, se cruzam para encobrir tudo. A irmã, esquizofrênica, fantasia as coisas impossíveis que Phineas e Ferb fazem, e também a vida secreta do animal de estimação e é vista pela mãe como louca. 
O tipo de esquizofrenia apresentada pela personagem é hebefrênica, pois foi apresentada na adolescência, e conta ainda com a paranoide, pois vemos as fantasias, alucinações e a dificuldade de distinguir o que é realidade e o que é imaginação, por exemplo, o animal de estimação visto pelos irmãos como disse Phineas no início do episódio “- Ele é um ornitorrinco, não é muito esperto”, é apenas um animal de estimação qualquer. Entretanto a irmã fantasia que o ornitorrinco seja um agente secreto que salva a cidade todos os dias da conspiração de um cientista maldoso que planeja destruir tudo para se sair bem. A personagem também fantasia coisas absurdas feitas pelos irmãos. No episódio “Montanha russa”, ela fantasia que eles constroem sozinhos uma super montanha russa que passa por toda cidade e tem partes que passam desde lava à jatos ao espaço extraterrestre.  Ela apresenta muitos dos sintomas da doença: Sensação de tensão e irritabilidade (principalmente com os irmãos), dificuldade de concentração e pensamentos desordenados (sempre mistura as falas, não para de falar durante as cenas em que aparece), ilusões (como antes apresentado, conspiração contra os irmãos e fantasia com o animal de estimação), comportamentos bizarros (no episódio, observamos o espanto da personagem com a possibilidade de um satélite sair de órbita e cair dentro de sua casa, e logo após ela ri, sair gritando ao meio da rua de bicicleta ao encontro da mãe para contar o que os irmãos estão fazendo, entre outros), ansiedade.
A esquizofrenia é uma doença genética, mas que precisa de um gatilho, ou série de acontecimentos que gerem trauma na vida do indivíduo para se desenvolver. Na ótica psicanalítica, segundo Jardim (2011), o delírio é uma tentativa de cura, uma reconstrução do mundo exterior pela restituição da libido ao objeto ainda que por uma via completamente imaginária, algo que não passa despercebido nos comportamentos do esquizofrênico. Também se pode observar que as instâncias do aparelho psíquico do esquizofrênico agem diferentemente. Os impulsos e pulsões contidos no Id não são totalmente julgados pelo superego, e o que o ego exige do Id é muito mais forte devido às fantasias que o esquizofrênico julga serem verdadeiras. A baixa censura faz com que ele tenha contato direto com o inconsciente, a esquizofrenia está dentro da personalidade psicótica proposta pela teria psicanalítica freudiana.
A esquizofrenia, segundo a psicanálise, também pode ser desencadeada naqueles que tem os genes ligados à doença pela relação com uma mãe superprotetora que também maltrata. A falta de uma das figuras materna/paterna também pode ser um agente que ajudará nesse processo de desencadeamento da patologia, não temos uma figura paterna no desenho, o que podemos analisar como uma construção da criança de uma mãe que faz os dois papeis ao mesmo tempo, e uma falha nesse contexto mais o gene da doença, desencadearia a patologia em si. A personagem do desenho em questão não apresenta desleixo com a aparência e higiene, porém apresenta muito forte a sensação de desconfiança de estarem a provocando (os irmãos arrumando tudo antes que a mãe veja), sensação de que o ambiente esteja estranho e também muita agitação, confusão e agressividade. Também vemos durante o episódio que ela tem uma crença inabalável e alucinações e delírios de que os dois irmãos e o animal de estimação fazem coisas que na realidade são impossíveis. Ela não concorda com qualquer correção da mãe sobre suas alucinações, por exemplo, quando ela vai ao supermercado ao encontro da mãe para contar sobre o que seus irmãos estavam fazendo, a mãe a chama de louca, e ela logo rebate dizendo que não está louca, que o que vê é verdade.
Em algumas pessoas em particular, a patologia causa sintomas cognitivos como problemas com atenção e alguns tipos de memória, porém em alguns casos podem ser difíceis de notar (a depender se o paciente estiver em tratamento), e pode ser que o individuo leve a vida sem sofrer muitas consequências ruins. Na personagem em análise, observamos que ela apresenta alguma dificuldade na atenção simultânea, por exemplo, quando fala ao telefone e não percebe que os irmãos passam por seu lado com coisas absurdas como um leão na jaula e uma grande quantidade de ferramentas para a construção da montanha russa gigante. É interessante notar também que em diversos momentos é perguntado à Phineas, o irmão mais agitado e mais falante, se não é meio impossível que se realize o que ele faz naquele determinado momento. Ele sempre responde: “-Tem gente que acha” ou até concorda com o outro, como quando o vendedor da loja de materiais de construção lhe pergunta: “- Você não é meio novo para ser engenheiro de montanha russa?”, e ele responde “- Sou, pior que sou”. O que analisamos é que a irmã, Candace que é que alucina a maior parte (ou tudo) o que acontece no episódio em questão, tem seus momentos de indagação sobre suas alucinações, que julga serem verdadeiras. É quando surge esse tipo de pergunta, mostrando claramente que por mais que ela não aceite que tudo que alucina seja “mentira” ou algo fora da realidade, é questionável alguns aspectos, como o seu irmão de menos idade que ela mesma, ser um engenheiro de montanha russa.
Não saber distinguir entre a realidade e a fantasia é o sintoma chave da patologia que estamos analisando. Eles realmente estão em período de férias, estão brincando no quintal, a mãe realmente sai e os deixam sozinhos etc. Porém Candace alucina tudo que já foi colocado e acredita fielmente que seja realidade, um aspecto que deve ser colocado é que o esquizofrênico alucina com coisas do seu cotidiano, exatamente como acontece com Candace, já que o desenho gira em torno de sua família, alguns amigos e o animal de estimação dos irmãos.




Conclusão
        Para Candace, o tratamento mais adequado seria de controle dos sintomas, pois não há cura para a doença. Esse tratamento teria que ser com medicamentos controlados, hospitalização durante as crises para sua segurança e dos outros a sua volta, e terapia psicossocial para lhe ajudar a se adequar na sociedade e no meio em que vive. Além disso, é necessário alimentação e sono adequado do paciente, e higienização.
Além de o trabalho ser muito importante na fixação de conteúdo e aprendizagem na disciplina, acredito que tenha aberto os nossos horizontes em relação a teoria psicanalítica e também à análise de sintomas e características de uma personalidade na ótica da teoria. Concluo que o trabalho foi de caráter fundamental no meu processo de formação.

Referências

JARDIM, Luciane Loss. A fragmentação do eu na esquizofrenia e o fenômeno do transitivismo: um caso clínico. Rev. Mal-estar e subjetividade. Fortaleza, vol. 11, n. 1, mar. 2011.
PEQUENO, Angela. Os demônios do gozo: uma contribuição para a psicanálise da esquizofrenia. Ágora. Estudos em teoria psicanalítica. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 1, Jan./Jun. 2002.





Este artigo foi um trabalho acadêmico feito pelo autor para a disciplina de Teorias da Personalidade. Sua replicação ou uso é de total responsabilidade do replicador.