sexta-feira, 6 de novembro de 2015

COMPARATIVO ENTRE AS TEORIAS DE SKINNER E PIAGET QUANTO À APRENDIZAGEM


Analisando as duas teorias, podemos perceber que para Piaget o aprendizado é dado por interação entre as estruturas internas e conteúdos externos, já para Skinner, o aprendizado ocorre a partir de interações entre o organismo e o ambiente. O que já nos remete à primeira e crucial diferença entre o behaviorismo e as demais teorias estudadas da aprendizagem, tendo base no materialismo, explicando o comportamento – e a aprendizagem – sem utilizar-se de termos mentalistas (que remetem a estruturas psíquicas ou internas na explicação do comportamento).
            Numa aprendizagem escolar com base na teoria de Piaget, os conteúdos, tendo ele estudado principalmente o raciocínio lógico-matemático que é imprescindível nos primeiros anos das séries iniciais, seriam apresentados para as crianças de acordo com seu estágio do desenvolvimento cognitivo postulado por ele (Piaget), sendo que essa forma de seleção de conteúdo é vigente até hoje em alguns modelos de ensino. Para Skinner, o conteúdo não dependeria primordialmente de uma maturação do sujeito, mas de outros conteúdos anteriormente ensinados. Os conteúdos são apresentados por etapas, aumentando-se o grau de dificuldade de acordo com o aprendizado individual do sujeito, algo que nos mostra uma pequena semelhança entre as abordagens no que diz respeito ao conteúdo ensinado.
            Outra semelhança que se percebe é uma ênfase – ainda que menor em Piaget – ao meio social na aprendizagem, que para Skinner tem peso maior, pois as relações entre os sujeitos (contingências) são cruciais no processo de aquisição de comportamentos, ou aprendizagem.
            Para Piaget, é de grande importância uma boa relação professor-aluno. Os afetos entre as duas partes contribuirá de forma efetiva na aprendizagem, para que os alunos se sintam “valorizados”. Já para Skinner, os afetos não tem importância na aprendizagem, podem até ocorrer, mas não afetam diretamente na aprendizagem, primeiramente porque os indivíduos são mais autônomos quanto à sua aprendizagem, dependendo esse de sua história passada de reforçamento, sendo que para Skinner toda aprendizagem acontece por consequências de comportamentos.
            Piaget considerava que o ambiente escolar e prática pedagógica deveriam se adequar aos interesses dos alunos, com base em seu estágio do desenvolvimento cognitivo. Ficando clara a importância da cognição para a aprendizagem, algo que Skinner desconsiderava enquanto estrutura. O professor teria o papel de apresentar o conteúdo que chega programado por técnicos para que se obtenham resultados favoráveis, em Skinner.

Referências

TAFNER, Malcon. A construção do conhecimento segundo Piaget. Acessado em 02/11/2015. Disponível em <http://www.cerebromente.org.br/n08/mente/construtivismo /construtivismo.htm/>


SILVA, André Luis Silva da. Teoria da Aprendizagem de Piaget. Acessado em 02/11/2015. Disponível em <http://www.infoescola.com/pedagogia/teoria-de-aprendizagem-de-piaget/>

Anotações: Palestra sobre os novos contos de fadas sob a ótica da Psicologia Analítica



            Na oportunidade de participar do Interculte (evento que realizou várias palestras para todos os cursos da Universidade Jorge Amado - Salvador-BA), destacou-se uma palestra sobre os novos contos de fada sob a ótica de Jung, ou Psicologia Analítica. Inicialmente, por haver pessoas de outros cursos que não Psicologia, foi feito pela palestrante, Psicóloga Junguiana professora da Unifacs – Salvador-BA, um breve resumo sobre os conceitos postulados pelo autor, como arquétipo e inconsciente coletivo. Depois, fizemos um debate sobre os contos de fadas originais e como eles davam, principalmente às crianças, base para o entendimento de sua vida afetiva, principalmente sexual, vivida e entendida de forma amena e tranquila. Entendemos também que os contos originais eram contados para adultos principalmente, em meados do séc. XVIII em diante, e que depois, com influência da Disney e da mídia, voltou-se para o público infantil. Discutimos também, que os contos originais – e esses reformulados pela Disney também, embora com mudanças cruciais – trabalham o lúdico da criança de uma forma indireta, não mostrando claramente o bom o e mau, por exemplo, mas dando indícios para que o espectador/ouvinte/telespectador façam suas identificações com os personagens e associações com a sua própria vida. A grande discussão e talvez a mais pertinente do encontro foi sobre os novos contos de fadas, ou melhor, as novas roupagens dos contos de fadas, filmes como “Malévola”, “A garota da capa vermelha”, séries como “Crepúsculo”, “Harry Potter”  que trazem novas roupagens dos contos de fadas para uma linguagem atual, discutindo sobre a objetividade desses filmes/séries que nos dizem claramente, sem a amenidade dos contos originais, o que era o bom, o mau, o sexual, não nos permitindo identifica-se com personagens diferentes, mas nos direcionando. Por exemplo, no conto original e no da Disney, a má era a madrasta, mas que possibilitaria uma criança ao assistir, perceber que a sua própria mãe poderia ter momentos de “maldade”, já no novo conto, “Malévola”, a má é a própria mãe, deixando claro essa relação em todo o filme. O que poderia de certa forma, desprezar a ludicidade que poderia ser característica dos contos de fadas. Mas seria essa uma forma de se adaptar a uma realidade contemporânea onde a “tecnologia” e o consumo fazem parte da vida das pessoas – e das crianças? As discussões movimentaram-se nesse sentido. 

Estudo do Behaviorismo Radical nas faculdades

Ultimamente tenho sofrido vários ataques embrulhados em papel de presente na faculdade. Por gostar bastante da Análise do Comportamento e ter defendido bastante a abordagem em trabalhos e discussões em sala de aula, muitas pessoas tem se voltado a mim quando criticam o suposto "mecanicismo S->R", "experimentos com rato" entre outros. Não gosto muito de me colocar nessa posição de defender uma abordagem em detrimento de outra, primeiro porquê ainda não escolhi uma, depois, e principalmente, porquê não é digno que o faça. Então, eu acho que muitos professores e até os próprios alunos, precisam muito de entender claramente a posição de uma abordagem antes de fazer críticas em sala de aula, onde a imagem do professor é tida como detentor do conhecimento, e que vale muito para as escolhas do alunos. É necessário que seja ressaltado com bastante ênfase uma neutralidade do professor quanto à isso. Quando o behaviorismo radical aparece como a única abordagem que não se desvia para termos mentalistas na explicação do comportamento, ela se torna demasiadamente passível de crítica dessas outras abordagens, que a tratam como uma visão de homem que retira o caráter "humano" no sentido de sensível e munido de superioridade quanto às outras espécies e quanto ao mundo, coisa que as pessoas têm dificuldade de pensar e aceitar - somos a própria natureza!. Bem, diante de tanta hostilidade científica, espero que essa seja uma dificuldade que as faculdade saibam lidar para que haja uma multidisciplinaridade no que diz respeito as teorias, para que os alunos se sintam confortáveis para discriminar qual abordagem mais responde as suas perguntas e que mais se adeque à forma de ver o mundo do sujeito.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Homofobia: Um processo de exclusão social

Introdução
A homofobia consiste em uma aversão, repugnância, medo ou ódio que algumas pessoas ou grupos nutrem contra homossexuais ou a homossexualidade. Advindo tanto do meio social, cultural e religioso esse tipo de preconceito tem acarretado a morte de milhares de pessoas homossexuais no Brasil e no mundo. De acordo com o Grupo Gay da Bahia, a homofobia, que ainda não é considerada crime no país, provocou pelo menos 216 assassinatos de janeiro até o dia 21 de setembro de 2014. Esse é um número aproximado da estimativa da realidade já que a ausência de informações oficiais sobre uma prática que não é discriminada nos boletins de ocorrência não gera os dados necessários para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) gerarem estatísticas oficiais.
Será abordado no trabalho aspectos da manifestação da homofobia nos dias de hoje, que de acordo com a pesquisa de Poeschl at. all (2012), aparece majoritariamente de uma maneira camuflada na sociedade, principalmente depois da aquisição de direitos civis na união matrimonial estável de casais homossexuais.
Outro ponto de relevante importância a ser mencionado é a variedade de expressões da identidade de gênero e orientação sexual humana. Denominações que vão muito além dos significados abarcados na sigla L.G.B.T. (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros).

Desenvolvimento
A sexualidade é algo amplo e múltiplo dentro da sociedade, logo, duas categorias como, homossexuais e heterossexuais, não dariam conta de abarcar todas as expressões da sexualidade no ser humano. Embora exista quem discorde dessa rotulação e categorização, ela é importante para que seja reconhecida todas as formas de identificação afetiva de cada indivíduo. Dentro da categoria de gênero, existe o masculino e o feminino, essa divisão binária é defendida por teóricos adeptos de abordagens apenas biológica, já outros teóricos defendem que masculino e feminino são uma construção social de papeis de gênero.
A partir dessa divisão, surge a identidade de gênero, onde os indivíduos expressam psíquica e socialmente uma gama de formas de se vestir, comportamentos, modo de falar e etc. Conforme essa caracterização cultural convenha com o gênero biológico, configura-se uma pessoa cisgênero (ou apenas cis), caso seja diferente do gênero, o transexual. Não obstante, aparece também a orientação sexual dos indivíduos, que definem com quais indivíduos esse vai se identificar afetivamente, que são o caso da orientações hetero, homo, bi, pan e assexual.
De acordo com Herek (2004), a homofobia pode revelar-se sob várias formas. Por exemplo, o heterossexismo é a manifestação da homofobia nas instituições sociais que, através dos seus discursos e retóricas sobre o género, a tradição ou a moralidade, tentam manter os estatutos tanto do grupo dominante como do grupo desviante, denegrindo qualquer comportamento ou relação não heterossexual.
Embora na atualidade as normas sociais das sociedades ocidentais tornem pouco aceitável a manifestação explícita de atitudes preconceituosas, a expressão aberta do preconceito é socialmente melhor aceita quando este é dirigido à minoria homossexual do que a outros grupos (Schneider, 2004). Por conseguinte, as atitudes negativas para com as pessoas que violam as normas de gênero ainda se traduzem, por vezes, em manifestações de hostilidade exacerbada e de violência verbal e física (LaMar & Kite, 1998).
Poeschl et. all diz que, de forma mais geral, o preconceito sexual manifesta-se na população heterossexual de duas formas (Morrison & Morrison, 2002): O preconceito “clássico”, explícito, tem por base objeções tradicionais e morais que desaprovam a homossexualidade (ex.: a homossexualidade é uma perversão, o comportamento homossexual é errado, os homossexuais são nojentos). O preconceito “moderno”, implícito, manifesta-se de forma mais sutil na oposição à extensão dos direitos civis das pessoas heterossexuais às pessoas homossexuais ou na crença de que a minoria homossexual está ganhar vantagens ou direitos imerecidos (ex.: muitos/as homossexuais usam a sua orientação sexual para obter privilégios especiais; os/as homossexuais tornaram-se demasiado exigentes na sua luta por direitos iguais). Os dois tipos de preconceito podem ser medidos, respectivamente, através da escala ATLG (Attitudes Toward Lesbians and Gay Men, Herek, 1988) e da escala MHS (Modern Homonegativity Scale, Morrison & Morrison, 2002). A investigação
revela que os níveis de preconceito implícito das pessoas heterossexuais são mais elevados do que os seus níveis de preconceito explícito (Morrison & Morrison, 2002), apesar dos dois tipos de preconceito estarem correlacionados (Morrison, Kenny & Harrington, 2005).
Existem, como é óbvio, diferenças interindividuais nos níveis de preconceito sexual que provêm de diversos fatores. Por exemplo, muitos estudos revelam que as mulheres são, em média, mais tolerantes para com a homossexualidade do que os homens e que, na atualidade como no passado, a homossexualidade feminina é melhor aceita do que a homossexualidade masculina (Ellis et. all 2002). Existem, ainda, diferenças na expressão do preconceito que provêm das motivações das pessoas para responder de forma (não) preconceituosa (Plant & Devine, 1998): Algumas pessoas são motivadas a não se mostrar preconceituosas por causa das suas atitudes, crenças e valores pessoais; outras por conformidade às normas atuais de igualdade, independentemente das suas crenças pessoais; outras, ainda, não se preocupam com as normas sociais e não se importam de exprimir abertamente os seus preconceitos. Plant e Devine (1998) verificaram que as motivações internas, mas não as externas, estão correlacionadas com medidas auto relatadas de atitudes preconceituosas, ou seja, quanto mais baixo o nível de preconceito, mais forte a motivação interna para controlar o preconceito.
Além da prática constante de discriminação e homofobia pela sociedade, existe outro grande problema em pauta. A impunidade em que se encontra a pessoa que pratica esse tipo de violência. Carlos Magno Fonseca, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, diz que uma das principais reivindicações é que o governo estimule a produção de dados oficiais sobre violações contra gays, o que seria facilitado pela criminalização da homofobia.
De acordo com a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que baseia suas estatísticas em denúncias do Disque 100, foram registradas 337 denúncias relativas à homofobia apenas entre janeiro a abril de 2014, o equivalente a mais de duas por dia. São Paulo é o primeiro disparado, com 97 registros (28% do total), seguido por Minas, com 31 (9%). Em 2013, foram 1.695 denúncias pelo Disque 100, sendo 745 de janeiro a abril. Em 2012, houve um pico de 3.017 denúncias, quase o triplo de 2011, quando foram registradas 1.159 queixas.
Um relatório da secretaria divulgado em 2013 e relativo a 2012 revela que 9.982 violações de direitos humanos foram cometidas contra 4.851 vítimas LGBT. No levantamento anterior, de 2011, foram 6.809 violações contra 1.713 vítimas. Os dados mostram ainda que, em 47,3% dos casos, os denunciantes não conheciam as vítimas. Mais de 71% das vítimas são do sexo masculino e mais de 61% têm de 15 a 29 anos.

**Esse artigo foi produzido pelos alunos: Caio Pedra, Naiara Borges, Tayná Alencar, Roseane Martins e Thais Nascimento, alunos do curso de Psicologia da UJ-BA. O blog não se responsabilizará por replicações, quando essas não manterem as citações e referências. 

Referências
POESCHL, G.; VENÂNCIO, J.; COSTA, D. Consequências da (não) revelação da homossexualidade e preconceito sexual: O ponto de vista das pessoas homossexuais. Edições Colibri, v. 26, n. 1, p. 33–53, 2012.

BARCELAR, C.; GALDO, R.; MIRANDA, M. No Brasil, homofobia matou ao menos 216 em 2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/brasil/no-brasil-homofobia-matou-ao-menos-216-em-2014-14087682>. Acesso em: 20 maio. 2015.

HEREK, G. M. Beyond “homophobia”: Thinking about sexual prejudice and stigma in the twenty-first century. Sexual Research and Social Policy, v. 2, n. 1, p. 6-24, 2004.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O mau uso da Psicologia

 Me canso de ver postagens sobre pesquisas estrangeiras (em sua maioria) afirmando algo sobre o comportamento humano ou sobre a mente, sempre é válido, mas talvez isso ajude a sustentar o pensamento vil que os leigos na área têm da Psicologia. De que forma? 
 Hoje vi na página "Curiosos" no facebook uma imagem com a seguinte afirmação: "Homens que postam muitas selfies têm traços de psicopatas." A princípio pensei em quanto me esforço para encontrar em tantos estudos sobre a mente e sobre o comportamento humano uma afirmação como essa. Depois, pensei que seria um investimento narcísico muito grande, talvez uma característica comum entre psicopatas (desde os mais variados níveis de psicopatia). 
 A informação foi retirada de um estudo publicado na revista Galileu. Claro que objetivo da página não é de averiguar quais informações realmente são corretas ou não (pelo menos pelo que vejo) mas apenas divulgar. O que penso é que as pessoas leigas ao ver notícias como essa passam a generalizar a informação e adicionar isso na lista "assuntos escrotos da psicologia" e fortalecer o estereótipo de "loucos, doidos" que nós estudantes de psi temos.  

 Outra coisa que vem me incomodando há um tempo é sobre como alguns advogados vêm usando os psicólogos da área para defender seus clientes. Já li muitos casos em que o advogado conseguiu convencer de que seu cliente teria um "surto" e assim cometido tal infração, com a ajuda do psicólogo responsável. Talvez o que tenha motivado o cliente a cometer tal crime não fosse nem o tal "surto", mas a visão que muitos advogados têm do psicólogo criminal é "uma carta na manga, alguém qualificado em dizer que o cliente está mal das ideias e não pode responder por tal crime". É triste, pois esse fato pode estar deixando impune criminosos que poderiam sim responder por tais atos. 

 Enfim, ficam minhas triviais palavras sobre o mau ou indevido uso da psicologia. Ainda existem muitas áreas e grupos de pessoas ou instituições que fazem o mesmo, mas estou de férias. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Vivência subjetiva do tempo

Como cada indivíduo vivencia a experiência do tempo, sua passagem, e suas relações com aspectos particulares da vida de cada um.


 "Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo." Friedrich Nietzsche

 O tempo cronológico é único, segue uma linha direta que não pára, e independente de qualquer fenômeno do mundo, mesmo não sendo percebido por ninguém, ele continua. Por exemplo, o relógio de pulso que temos, mesmo que a gente não fique olhando para ele o tempo todo, ele continua a contar o tempo até que a bateria se esgote, o que não faz o tempo parar.
 Essa característica de o tempo não parar, é tema desde que se começou a contagem do tempo, de ditos populares, músicas, poesias e muitos outros aspectos.
 O que nos interessa nesse momento não é o tempo cronológico, esse tempo que podemos contar, mas sim o tempo subjetivo, a relação do tempo com cada momento da vida dos indivíduos.
 Um dia para quem está em um parque aquático, se divertindo à beça, pode passar muito rápido para o indivíduo, porém para quem trabalha no local limpando as piscinas, por exemplo, e acha um saco ter que trabalhar fazendo aquilo, o mesmo dia pode se tornar quase eterno. O que acontece é que prestar atenção no passar do tempo pode interferir na sua percepção, fazendo com que ache que as horas "voaram" ou passaram demasiadamente devagar.
 Fazendo uma analogia com  frase do filósofo alemão Nietzsche, acima citada, podemos analisar que para quem foi privado de tudo por muito tempo (por exemplo, um prisioneiro que pagou por seus crimes, uma criança que foi privada de diversão fora de casa por seus pais até depois da adolescência) a vivência do tempo nesse novo contexto pode se dar de forma demasiadamente rápida, já que possivelmente irá aproveitar tudo o que antes foi privado de realizar.
  Analisando o contexto religioso, na bíblia encontramos alguns versículos falando sobre o tempo:

  1. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. (Eclesiastes 3:1)
  2. Mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. (2 Pedro 3:8)
 O que se interpreta desses versículos é justamente que para nós, a vivência do tempo é totalmente subjetiva, a passagem do tempo pode ser longa ou curta na percepção de cada um, a depender do contexto em que o mesmo se encontre. 
 O tempo é único e constante, porém cada um vivencia de forma diferente para cada experiência. 
 Na infância, começamos a adquirir a noção de tempo depois de ter noção de antes e depois, ordenação de movimentos para realizar determinadas atividades cotidianas (vestir-se, despir-se, calçar os sapatos). Antes disso, um minuto pode ser entendido como uma hora, e uma hora como um segundo, ou seja, ainda não teríamos noções de tempo e nem uma subjetividade totalmente formada, para saber quem, onde e quando somos/estamos. 



Referências:
OLIVEIRA, Gislene de Campos. Psicomotricidade: Educação e reeducação num enfoque psicopedagógico. Petrópolis: Vozes, 2002. (Cap.2. Desenvolvimento da psicomotricidade. p. 41-103).
Bíblia sagrada. Eclesiastes cap 3, vers. 1/2 Pedro cap. 3, vers. 8. Nova versão internacional. 





Análise sintomatológica psicanalítica do episódio “Montanha russa” do desenho animado Phineas and Ferb

Introdução
O desenho animado Phineas and Ferb, (na versão brasileira Phineas e Ferb, Delart RJ) chegou ao Brasil em fevereiro de 2008 através do canal de TV Disney Channel. Na versão americana, é uma série de comédia musical animada. Os episódios seguem um enredo padrão, o momento é sempre as férias de verão dos irmãos, que sem nada para fazer às tardes, decidem sempre construir um grande projeto, como uma praia particular em seu quintal, uma montanha russa gigante ou algo parecido e literalmente impossível. A irmã dos meninos, Candace, sempre tenta contar para sua mãe sobre o que eles fazem, mas o que sempre acontece é as coisas voltarem ao normal quando ela presencia, o que irrita muito Candace. O enredo envolve ainda “Perry, o ornitorrinco”, como um agente secreto que luta contra seu inimigo Dr. Heinz Doofenshirtz, um cientista maldoso que sempre tenta, impedido pelo Agente P. (Perry, o ornitorrinco), dominar o mundo através de criações de super máquinas. Os dois enredos acontecem separados, porém simultaneamente e se cruzam ao final para apagar os vestígios de tudo que os irmãos construíram sem a mãe perceber, o que deixa Candace muito frustrada. Analisando os três personagens principais, Phineas, Ferb e Candace, concluo que pelas características sintomatológicas apresentadas em toda a série e no episódio específico “Montanha russa”, que Candace é esquizofrênica, nesta análise, vamos focar na personagem.

Análise sintomatológica na ótica psicanalítica da personagem Candace
Como já mencionado, os episódios seguem um roteiro padrão. O episódio começa com os irmãos planejando o que irão construir naquela tarde.  Logo que a mãe vai ao supermercado, a irmã e personagem principal, Candace, vai avisar aos irmãos que estaria responsável por eles na ausência da mãe. Segundo Pequeno (2002), na esquizofrenia não ocorre a simbolização da ausência da mãe tal como se dá na paranoia. A mãe funciona muitas vezes como bengala imaginária. Quando ela não está presente, ele [o esquizofrênico] se perde. Nessa visão de A. Pequeno, podemos fazer uma analogia com a personagem, pois os momentos em que as crises aparecem mais fortemente é na ausência da mãe, que serve para ela como uma bengala imaginária que lhe dá suporte ajudando a personagem a distinguir, sem sucesso, o que é real e o que é imaginário. O que se percebe nas próximas cenas, é uma preocupação de Candace em fazer com que a mãe coloque os irmãos de castigo por terem feito algo que a irritasse. Como todos os dias das férias eles constroem algo demasiado engenhoso, ela faz o possível para a mãe perceber, porém sempre a cena dos irmãos e a cena de Perry, o ornitorrinco, se cruzam para encobrir tudo. A irmã, esquizofrênica, fantasia as coisas impossíveis que Phineas e Ferb fazem, e também a vida secreta do animal de estimação e é vista pela mãe como louca. 
O tipo de esquizofrenia apresentada pela personagem é hebefrênica, pois foi apresentada na adolescência, e conta ainda com a paranoide, pois vemos as fantasias, alucinações e a dificuldade de distinguir o que é realidade e o que é imaginação, por exemplo, o animal de estimação visto pelos irmãos como disse Phineas no início do episódio “- Ele é um ornitorrinco, não é muito esperto”, é apenas um animal de estimação qualquer. Entretanto a irmã fantasia que o ornitorrinco seja um agente secreto que salva a cidade todos os dias da conspiração de um cientista maldoso que planeja destruir tudo para se sair bem. A personagem também fantasia coisas absurdas feitas pelos irmãos. No episódio “Montanha russa”, ela fantasia que eles constroem sozinhos uma super montanha russa que passa por toda cidade e tem partes que passam desde lava à jatos ao espaço extraterrestre.  Ela apresenta muitos dos sintomas da doença: Sensação de tensão e irritabilidade (principalmente com os irmãos), dificuldade de concentração e pensamentos desordenados (sempre mistura as falas, não para de falar durante as cenas em que aparece), ilusões (como antes apresentado, conspiração contra os irmãos e fantasia com o animal de estimação), comportamentos bizarros (no episódio, observamos o espanto da personagem com a possibilidade de um satélite sair de órbita e cair dentro de sua casa, e logo após ela ri, sair gritando ao meio da rua de bicicleta ao encontro da mãe para contar o que os irmãos estão fazendo, entre outros), ansiedade.
A esquizofrenia é uma doença genética, mas que precisa de um gatilho, ou série de acontecimentos que gerem trauma na vida do indivíduo para se desenvolver. Na ótica psicanalítica, segundo Jardim (2011), o delírio é uma tentativa de cura, uma reconstrução do mundo exterior pela restituição da libido ao objeto ainda que por uma via completamente imaginária, algo que não passa despercebido nos comportamentos do esquizofrênico. Também se pode observar que as instâncias do aparelho psíquico do esquizofrênico agem diferentemente. Os impulsos e pulsões contidos no Id não são totalmente julgados pelo superego, e o que o ego exige do Id é muito mais forte devido às fantasias que o esquizofrênico julga serem verdadeiras. A baixa censura faz com que ele tenha contato direto com o inconsciente, a esquizofrenia está dentro da personalidade psicótica proposta pela teria psicanalítica freudiana.
A esquizofrenia, segundo a psicanálise, também pode ser desencadeada naqueles que tem os genes ligados à doença pela relação com uma mãe superprotetora que também maltrata. A falta de uma das figuras materna/paterna também pode ser um agente que ajudará nesse processo de desencadeamento da patologia, não temos uma figura paterna no desenho, o que podemos analisar como uma construção da criança de uma mãe que faz os dois papeis ao mesmo tempo, e uma falha nesse contexto mais o gene da doença, desencadearia a patologia em si. A personagem do desenho em questão não apresenta desleixo com a aparência e higiene, porém apresenta muito forte a sensação de desconfiança de estarem a provocando (os irmãos arrumando tudo antes que a mãe veja), sensação de que o ambiente esteja estranho e também muita agitação, confusão e agressividade. Também vemos durante o episódio que ela tem uma crença inabalável e alucinações e delírios de que os dois irmãos e o animal de estimação fazem coisas que na realidade são impossíveis. Ela não concorda com qualquer correção da mãe sobre suas alucinações, por exemplo, quando ela vai ao supermercado ao encontro da mãe para contar sobre o que seus irmãos estavam fazendo, a mãe a chama de louca, e ela logo rebate dizendo que não está louca, que o que vê é verdade.
Em algumas pessoas em particular, a patologia causa sintomas cognitivos como problemas com atenção e alguns tipos de memória, porém em alguns casos podem ser difíceis de notar (a depender se o paciente estiver em tratamento), e pode ser que o individuo leve a vida sem sofrer muitas consequências ruins. Na personagem em análise, observamos que ela apresenta alguma dificuldade na atenção simultânea, por exemplo, quando fala ao telefone e não percebe que os irmãos passam por seu lado com coisas absurdas como um leão na jaula e uma grande quantidade de ferramentas para a construção da montanha russa gigante. É interessante notar também que em diversos momentos é perguntado à Phineas, o irmão mais agitado e mais falante, se não é meio impossível que se realize o que ele faz naquele determinado momento. Ele sempre responde: “-Tem gente que acha” ou até concorda com o outro, como quando o vendedor da loja de materiais de construção lhe pergunta: “- Você não é meio novo para ser engenheiro de montanha russa?”, e ele responde “- Sou, pior que sou”. O que analisamos é que a irmã, Candace que é que alucina a maior parte (ou tudo) o que acontece no episódio em questão, tem seus momentos de indagação sobre suas alucinações, que julga serem verdadeiras. É quando surge esse tipo de pergunta, mostrando claramente que por mais que ela não aceite que tudo que alucina seja “mentira” ou algo fora da realidade, é questionável alguns aspectos, como o seu irmão de menos idade que ela mesma, ser um engenheiro de montanha russa.
Não saber distinguir entre a realidade e a fantasia é o sintoma chave da patologia que estamos analisando. Eles realmente estão em período de férias, estão brincando no quintal, a mãe realmente sai e os deixam sozinhos etc. Porém Candace alucina tudo que já foi colocado e acredita fielmente que seja realidade, um aspecto que deve ser colocado é que o esquizofrênico alucina com coisas do seu cotidiano, exatamente como acontece com Candace, já que o desenho gira em torno de sua família, alguns amigos e o animal de estimação dos irmãos.




Conclusão
        Para Candace, o tratamento mais adequado seria de controle dos sintomas, pois não há cura para a doença. Esse tratamento teria que ser com medicamentos controlados, hospitalização durante as crises para sua segurança e dos outros a sua volta, e terapia psicossocial para lhe ajudar a se adequar na sociedade e no meio em que vive. Além disso, é necessário alimentação e sono adequado do paciente, e higienização.
Além de o trabalho ser muito importante na fixação de conteúdo e aprendizagem na disciplina, acredito que tenha aberto os nossos horizontes em relação a teoria psicanalítica e também à análise de sintomas e características de uma personalidade na ótica da teoria. Concluo que o trabalho foi de caráter fundamental no meu processo de formação.

Referências

JARDIM, Luciane Loss. A fragmentação do eu na esquizofrenia e o fenômeno do transitivismo: um caso clínico. Rev. Mal-estar e subjetividade. Fortaleza, vol. 11, n. 1, mar. 2011.
PEQUENO, Angela. Os demônios do gozo: uma contribuição para a psicanálise da esquizofrenia. Ágora. Estudos em teoria psicanalítica. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 1, Jan./Jun. 2002.





Este artigo foi um trabalho acadêmico feito pelo autor para a disciplina de Teorias da Personalidade. Sua replicação ou uso é de total responsabilidade do replicador.