terça-feira, 26 de abril de 2016

O FEMINISMO COMO AGENTE TRANSFORMADOR

Bem, há muito que eu queria falar sobre o feminismo, mas por não protagonizar esse movimento por ser homem, apelei para minha amiga Daniele Rocha, que faz parte do movimento feminista. Muito obrigado Daniele, ficou incrível! O resultado dessa provocação foi o texto que se segue. (Título e subtítulo da autora).

A VISIBILIDADE DO TRABALHO DOMÉSTICO A PARTIR DO MOVIMENTO FEMINISTA  (Por Daniele Rocha)




Confesso, vergonhosamente, que alguns anos atrás achava minha mãe uma mulher fracassada e preguiçosa, pois ela não trabalhava; só fazia limpar a casa, cozinha e lavar roupa. Quando me perguntavam a profissão dela, dizia que ela era secretária, professora, ou então, enfermeira. Minha mãe podia ser tudo, menos dona de casa. A visão que tinha do meu pai já era diferente, eu o admirava, achava ele genial e inteligente, pois trabalhava e sabia discutir sobre politica.

Na minha adolescência, tudo mudou. Percebi como eu e toda minha família desvalorizávamos o que minha mãe fazia dentro de casa. E isso se deve muito à ação politica dos movimentos feministas que tive contato na época.
O feminismo foi um importante agente transformador na relação que tinha com minha mãe - e acredito que ainda seja - como também, para tantas outras relações sociais, pois possibilita vermos muitas mulheres que realizam trabalhos domésticos de forma mais critica, aprofundando o conhecimento sobre a problemática da desvalorização do trabalho doméstico, sendo assim, dando mais visibilidade a estas mulheres na sociedade. A partir do feminismo podemos ver a mulher como um ser forte, como uma pessoa sobre quem todos nós apoiamos e que permite que as atividades fora de casa sejam realizadas de forma plena.
O trabalho doméstico é desvalorizado e invisível na sociedade devido a forma que o sistema capitalista se organiza, e que é uma organização extremamente perversa, pois exclui o trabalho executado no espaço privado e que não gera valores monetários, já que compreende apenas como trabalho aquele que é exercido no espaço publico com carga horária determinada: o oficio assalariado. Segundo Marx, a concepção de trabalho adotado por este sistema se fundamenta nos interesses econômicos burgueses e patriarcais, que considera apenas como trabalhador aquele que produz mais-valia. Sendo assim, as mulheres não se reconhecem como trabalhadoras realizando as atividades domésticas, considerando tais tarefas apenas como "obrigações femininas".
Além disso, é válido ressaltar que esta forma que o sistema capitalista se organiza reforça a divisão desigual de trabalho entre homens e mulheres, a qual advêm da construção histórica e cultural.
Além da influência da relações de gênero sobre esta concepção do trabalho desigual e das classes sociais, é importante considerar a dimensão étnico-racial, que se origina do período escravocrata. Mulheres negras e brancas trabalhavam de formas distintas: as mulheres negras escravizadas executavam tarefas da casa grande e as mulheres brancas bordavam e gerenciavam as atividades da casa. Este quadro social perpetua, infelizmente, até hoje -  o trabalho doméstico é o cotidiano de muitas mulheres negras.
Contudo, é evidente como a estrutura do modo de produção capitalista se torna excludente diante da realidade social e econômica da população que exerce o trabalho não remunerado, por causa disso, é necessário reconhecer o espaço privado informal como trabalho para que muitas mulheres que assumem as atividades domésticas saiam deste campo social desvalorizado e invisível. Assim como, é essencial que sejam ampliados as ações e os debates feministas para além das universidades, pois existem muitas mulheres que se sacrificam para que outras se libertem. 


Daniele Rocha

Texto de referência: 

BARBOSA, L. SOARES; M. Trabalho doméstico, trabalho desvalorizado, trabalho de mulheres. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/17redor/17redor/paper/view/284 >. Acesso em: 20 de abr. de 2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário